Realmente não sei. Se mexer os lábios concerteza é. Mas, se não mexer, fico na dúvida. Uma coisa é certa, se fizer gestos o caso sério.
As vezes me pego conversando comigo mesmo – papo vai, papo vem e, derrepente, involuntariamente, cometo o pecado de mexer os lábios – sem gestos. Pronto. Sou louco.
Então eu pergunto: – Quem não é? Quem não fala?
Muitas vezes conto histórias para eu mesmo, como se estivesse ensaiando, como se fosse contar para alguém. Isso realmente é estranho mas, eu juro, sou, pareço, normalzinho.
Um dia desses, esperando o ônibus, no outro lado da rua estava uma jovem, sozinha, louqueando. Com o seu dedo ela fazia sinal de silêncio, dirigindo-se ao nada a sua frente, falava alguma coisa, repetia o sinal. Sem celular na mão, sem fones nas orelhas, o que estaria fazendo? Talvez estivesse ensaiando algo, poderia ser atriz, dançarina ou alguma outra coisa.
Um casal ao meu lado, nem cogitou a sétima arte, proferiu logo a sentença:
- Isso é o que a droga faz, olha a roupa, é uma drogada. Olha como o Julhinho vai ficar.
Sobrou até para o Julhinho, que eu não sei que é. Mas coitada da menina. Quanto a roupa dela, achei normal. É melhor deixarmos cada um com suas manias e/ou loucuras.
Depois disso, passei a analisar o dia a dia. Percebi que muita gente fala, gesticula, com o gasparzinho. Me senti confortado. Pois me enquadro nesse grupo, amicíssimo do fantasminha camarada, do famoso ninguém.
Desse dia a dia, espero tirar algumas histórias e contar aqui.
Deixo uma dica, a quem interessar:
- Se der vontade de falar sozinho, procure não mexer os lábios. Gestos então, nem pensar.
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